
Paulo Schiller
Author of A paixão pela mentira (Portuguese Edition)
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Na cena principal de Libertação, a personagem tenta estabelecer um vínculo com um homem que ela ainda não percebe completamente como uma ameaça. Ela fala de Onieguin, do gelo, oferece aguardente. É terrível que essa conexão só seja estabelecida pela compreensão da violência.
“O homem estava sentado na cama com o torso contorcido. A cabeça estava muito inclinada, o rosto entre as mãos, como se rezasse ou meditasse. Estava assim sentado com o rosto entre as palmas das mãos, na show more postura de quem pensava ou rezasse. Não ergueu os olhos, permaneceu imóvel, como se não soubesse e não quisesse olhar Erzsébet nos olhos, como quem se envergonhasse ou escondesse alguma coisa... E Erzsébet compreendeu que o homem não se envergonhava do que acontecera, nem de sua miséria e impotência, mas de algo diferente, diferente... De repente ela compreendeu, e como antes – quando o russo se grudara nela com as duas mãos e uma calafrio percorrera seu corpo, o sistema nervoso todo -, agora também ela começou a sentir um tremor gélido e a bater os dentes. Ele tem vergonha de alguma coisa, pensou. Tem vergonha de ser humano.”
A libertação de Erzsébet prenuncia a realidade de seu país, não é uma libertação de verdade, mas algo inicialmente ambíguo, então violento e muito triste, que fará com que ela duvide se está livre afinal, e sobre a própria natureza da liberdade. Não só reflete a situação histórica da Hungria, mas conta a história de uma pessoa que passou por todo o horror da guerra, de ter seu país invadido, o que o torna universal. show less
“O homem estava sentado na cama com o torso contorcido. A cabeça estava muito inclinada, o rosto entre as mãos, como se rezasse ou meditasse. Estava assim sentado com o rosto entre as palmas das mãos, na show more postura de quem pensava ou rezasse. Não ergueu os olhos, permaneceu imóvel, como se não soubesse e não quisesse olhar Erzsébet nos olhos, como quem se envergonhasse ou escondesse alguma coisa... E Erzsébet compreendeu que o homem não se envergonhava do que acontecera, nem de sua miséria e impotência, mas de algo diferente, diferente... De repente ela compreendeu, e como antes – quando o russo se grudara nela com as duas mãos e uma calafrio percorrera seu corpo, o sistema nervoso todo -, agora também ela começou a sentir um tremor gélido e a bater os dentes. Ele tem vergonha de alguma coisa, pensou. Tem vergonha de ser humano.”
A libertação de Erzsébet prenuncia a realidade de seu país, não é uma libertação de verdade, mas algo inicialmente ambíguo, então violento e muito triste, que fará com que ela duvide se está livre afinal, e sobre a própria natureza da liberdade. Não só reflete a situação histórica da Hungria, mas conta a história de uma pessoa que passou por todo o horror da guerra, de ter seu país invadido, o que o torna universal. show less
O primeiro aspecto que chama a atenção do leitor de Os Verbos Auxiliares do Coração não é o texto em si. Porque cada página está escrita dentro de um quadro de luto, como notificações de falecimento flutuando dentro do livro. Não há numeração nas páginas. A narrativa é dividida entre a parte superior da página e a inferior, em que o texto aparece em caixa alta e é composto de numerosas citações - justificando o subtítulo do livro: Introdução à Literatura.
A primeira show more parte fala de um homem que perde a mãe, chamada Beatriz Viterbo, e a segunda, após uma página negra, de uma mulher que perde o filho.
A informação de que Péter Esterházy escreveu esse livro após a morte da mãe pode dar a impressão errada de que essa é uma narrativa de catarse. Não é. Esse é um livro confuso, intertextual, sombrio e no fundo sobre algo que nem mesmo existe, já que a língua húngara não tem verbos auxiliares.
Um livro em sintonia com Esterházy, que acredita que a literatura não é prática, mas perigosa. show less
A primeira show more parte fala de um homem que perde a mãe, chamada Beatriz Viterbo, e a segunda, após uma página negra, de uma mulher que perde o filho.
A informação de que Péter Esterházy escreveu esse livro após a morte da mãe pode dar a impressão errada de que essa é uma narrativa de catarse. Não é. Esse é um livro confuso, intertextual, sombrio e no fundo sobre algo que nem mesmo existe, já que a língua húngara não tem verbos auxiliares.
Um livro em sintonia com Esterházy, que acredita que a literatura não é prática, mas perigosa. show less
Cinco
Há uma mulher. Ela me ama. Ela se debate com o passado, a saber, o individual e o coletivo, com o passado próprio e o do país. Ela não se conforma. Por exemplo, não consegue digerir a rendição em Világos. Quem sabe se Dembinski tivesse um pouquinho mais de talento... Ou por que ele não gostava de Kossuth-Görgey? O senhor sabe a bunda que eu tinha? Não, o senhor não sabe. Não, não pense num rabo igual ao de uma égua, num redemoinho barroco, não pense nessas, eu entendo, show more idealizações banais... O senhor só vê o que existe. Em 18 de fevereiro de 1853, János Libényi, aprendiz de alfaiate, cometeu um atentado malsucedido contra o imperador. O senhor vê apenas que ela se desprendeu, que ela está caindo, que a minha bunda está caindo.
Ela gosta de beijar (veja Kossuth-Görgey), deixa-se levar por uma alegria incontida, ri, gargalha, relincha – são diversas variedades de beijo. Que gostoso!, e ela fica brincando na minha boca, mais, vamos, mais um pouquinho, a língua endurece, quase bate no céu da boca, emite trinados lá dentro na escuridão, na minha escuridão. A Paganini dos beijos, digo, vulgar. Quieta! Estou trabalhando! Os beijos deslizam sobre ela, sobre o pescoço, sobre o rosto bronzeado, as bochechas, o nariz, as órbitas, eu a beijo nos olhos, nas têmporas, no alto da cabeça, as coxas se movimentam, apenas se mexem, se tocam e se separam, e nas costelas e nos ossos...
A rendição na planície de Majtény, ela geme.
Vinte e dois
Há uma mulher. Sente por mim o que eu sinto por ela, me odeia, me ama. Quando ela me odeia eu a amo, quando ela me ama, eu a odeio.
Não existe outra possibilidade.
Trinta e dois
Há uma mulher. A minha mãe. Posso? Tenho uma mãe. Ela me odeia. Recorrendo a uma concepção sexista, de porco chauvinista, ela pode ser classificada como alguém de quinta, com jeito de República Democrática Alemã, evidentemente ordinária (batom, roupas, dentes), que por isso mesmo é um ser que chama a atenção e que, um dia, enquanto tomava sol estatelada, abriu e ergueu um pouco as pernas, e com isso, de certa forma, a carne na base das coxas, atrás, caiu, formou dobras, e essas dobras trouxeram à luz, exibiram, alguns pelos, pelos púbicos. Depois que o movimento cessou, tudo ficou daquele modo, escancarado.
Durante anos não consegui desviar o olhar. Não: nunca consegui desviar o olhar. show less
Há uma mulher. Ela me ama. Ela se debate com o passado, a saber, o individual e o coletivo, com o passado próprio e o do país. Ela não se conforma. Por exemplo, não consegue digerir a rendição em Világos. Quem sabe se Dembinski tivesse um pouquinho mais de talento... Ou por que ele não gostava de Kossuth-Görgey? O senhor sabe a bunda que eu tinha? Não, o senhor não sabe. Não, não pense num rabo igual ao de uma égua, num redemoinho barroco, não pense nessas, eu entendo, show more idealizações banais... O senhor só vê o que existe. Em 18 de fevereiro de 1853, János Libényi, aprendiz de alfaiate, cometeu um atentado malsucedido contra o imperador. O senhor vê apenas que ela se desprendeu, que ela está caindo, que a minha bunda está caindo.
Ela gosta de beijar (veja Kossuth-Görgey), deixa-se levar por uma alegria incontida, ri, gargalha, relincha – são diversas variedades de beijo. Que gostoso!, e ela fica brincando na minha boca, mais, vamos, mais um pouquinho, a língua endurece, quase bate no céu da boca, emite trinados lá dentro na escuridão, na minha escuridão. A Paganini dos beijos, digo, vulgar. Quieta! Estou trabalhando! Os beijos deslizam sobre ela, sobre o pescoço, sobre o rosto bronzeado, as bochechas, o nariz, as órbitas, eu a beijo nos olhos, nas têmporas, no alto da cabeça, as coxas se movimentam, apenas se mexem, se tocam e se separam, e nas costelas e nos ossos...
A rendição na planície de Majtény, ela geme.
Vinte e dois
Há uma mulher. Sente por mim o que eu sinto por ela, me odeia, me ama. Quando ela me odeia eu a amo, quando ela me ama, eu a odeio.
Não existe outra possibilidade.
Trinta e dois
Há uma mulher. A minha mãe. Posso? Tenho uma mãe. Ela me odeia. Recorrendo a uma concepção sexista, de porco chauvinista, ela pode ser classificada como alguém de quinta, com jeito de República Democrática Alemã, evidentemente ordinária (batom, roupas, dentes), que por isso mesmo é um ser que chama a atenção e que, um dia, enquanto tomava sol estatelada, abriu e ergueu um pouco as pernas, e com isso, de certa forma, a carne na base das coxas, atrás, caiu, formou dobras, e essas dobras trouxeram à luz, exibiram, alguns pelos, pelos púbicos. Depois que o movimento cessou, tudo ficou daquele modo, escancarado.
Durante anos não consegui desviar o olhar. Não: nunca consegui desviar o olhar. show less
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