
Tânia Ganho
Author of Apneia (Portuguese Edition)
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O tema é forte, mas é também um terreno escorregadio. Um passo em falso e o resultado seria desastroso. Não é o caso.
Gosto muito da abertura do romance: "Mais tarde, teve de fazer um esforço para se lembrar se a carruagem estava parada na estação ou em movimento, mas, sim, estava parada e quase vazia. As pessoas já tinham saído ou entrado, ela não se apercebera, porque mergulhara num poema de Sharon Olds e seguira num verso um peixe ondulando, saía de uma cozinha numa bandeja e show more pousava numa toalha de linho sob as velhas árvores da vida. Era de morte que falava o poema." Introduz perfeitamente a personagem principal e a sua índole, mas também o que se irá desenrolar de seguida.
Depois, embora o livro possa à primeira vista, pela sua dimensão, ser usado como arma de arremesso, a sua leitura é muito fluída (e a paginação generosa). É explorada com grande profundidade, para além do óbvio, a psicologia da relação entre agressor e vítima. Em momentos chave consegue arrancar até ao mais empedernido dos leitores um soluço de choro. A empatia é inevitável porque foi escrito com honestidade.
Uma das passagens mais fortes do livro ocorre já perto do final:
"O nojo é pegajoso, cola-se-lhe às recordações, conspurcando todas as memórias. Cobre a memória do belo, destrói-a. Sobre o álbum fotográfico mental do casamento derrama-se uma mancha de óleo que alastra e fede. Não resta nada.
A louça suja empilha-se dentro da pia. A lavada fica dentro da máquina o dia inteiro, até faltarem panelas, frigideiras, pratos. Os e-mails acumulam-se pelo soalho, na caixa de entrada. Os novelos de cotão rolam sem que ela os aspire ou sequer os apanhe. Enquanto se desloca de um lado para o outro na cidade uma encomenda para levar ao correio, uma consulta de psicologia, a mamografia anual -, a sua mente distrai-se, concentra-se na estrada, nas pessoas, nos pássaros que esvoaçam sobre o trânsito. Vai a uma aula de dança e ri, feliz durante uma hora. Mas, assim que suspende o movimento - a deslocação de A para B -, as imagens, as recordações reinterpretadas, as ilações do horror abatem-se sobre ela, insuportáveis. O choro é convulsivo, ruidoso, ela quer refreá-lo e não consegue, a garganta é assolada por espasmos que se sucedem em vagas, debilitantes.
No rádio do carro, ouve inesperadamente uma música que associa aos serões em Roma, quando, grávida, via televisão com Alessandro após o jantar e aquela música era o jingle de uma publicidade recorrente. Desliga o rádio, como se tivesse levado um soco no plexo solar.
O seu casamento foi uma enorme mentira.
O seu casamento mete-lhe nojo."
Sinto algum pudor em tentar desmontar o livro... em analisar as suas opções como um meio para produzir um determinado efeito. Sinto que isso trairia a honestidade, sensibilidade e sentido de dever com que foi escrito. show less
Gosto muito da abertura do romance: "Mais tarde, teve de fazer um esforço para se lembrar se a carruagem estava parada na estação ou em movimento, mas, sim, estava parada e quase vazia. As pessoas já tinham saído ou entrado, ela não se apercebera, porque mergulhara num poema de Sharon Olds e seguira num verso um peixe ondulando, saía de uma cozinha numa bandeja e show more pousava numa toalha de linho sob as velhas árvores da vida. Era de morte que falava o poema." Introduz perfeitamente a personagem principal e a sua índole, mas também o que se irá desenrolar de seguida.
Depois, embora o livro possa à primeira vista, pela sua dimensão, ser usado como arma de arremesso, a sua leitura é muito fluída (e a paginação generosa). É explorada com grande profundidade, para além do óbvio, a psicologia da relação entre agressor e vítima. Em momentos chave consegue arrancar até ao mais empedernido dos leitores um soluço de choro. A empatia é inevitável porque foi escrito com honestidade.
Uma das passagens mais fortes do livro ocorre já perto do final:
"O nojo é pegajoso, cola-se-lhe às recordações, conspurcando todas as memórias. Cobre a memória do belo, destrói-a. Sobre o álbum fotográfico mental do casamento derrama-se uma mancha de óleo que alastra e fede. Não resta nada.
A louça suja empilha-se dentro da pia. A lavada fica dentro da máquina o dia inteiro, até faltarem panelas, frigideiras, pratos. Os e-mails acumulam-se pelo soalho, na caixa de entrada. Os novelos de cotão rolam sem que ela os aspire ou sequer os apanhe. Enquanto se desloca de um lado para o outro na cidade uma encomenda para levar ao correio, uma consulta de psicologia, a mamografia anual -, a sua mente distrai-se, concentra-se na estrada, nas pessoas, nos pássaros que esvoaçam sobre o trânsito. Vai a uma aula de dança e ri, feliz durante uma hora. Mas, assim que suspende o movimento - a deslocação de A para B -, as imagens, as recordações reinterpretadas, as ilações do horror abatem-se sobre ela, insuportáveis. O choro é convulsivo, ruidoso, ela quer refreá-lo e não consegue, a garganta é assolada por espasmos que se sucedem em vagas, debilitantes.
No rádio do carro, ouve inesperadamente uma música que associa aos serões em Roma, quando, grávida, via televisão com Alessandro após o jantar e aquela música era o jingle de uma publicidade recorrente. Desliga o rádio, como se tivesse levado um soco no plexo solar.
O seu casamento foi uma enorme mentira.
O seu casamento mete-lhe nojo."
Sinto algum pudor em tentar desmontar o livro... em analisar as suas opções como um meio para produzir um determinado efeito. Sinto que isso trairia a honestidade, sensibilidade e sentido de dever com que foi escrito. show less
Ia para esta leitura com algumas expectativas, já que a grande maioria das opiniões é bastante favorável. Talvez tenha sido esse o erro.
A premissa é boa e a história está bem contada (apesar de algumas incongruências), no entanto tornou-se demasiado grande e massudo, com um final algo abruto. Mas admito que provavelmente a ideia será causar no leitor cansaço, simulando o desgaste que estes processos causam aos seus intervenientes.
Gostei da referência às obras de arte e de show more literatura. Apesar de não ficar nos meus favoritos fiquei com vontade de ler outras obras da autora. show less
A premissa é boa e a história está bem contada (apesar de algumas incongruências), no entanto tornou-se demasiado grande e massudo, com um final algo abruto. Mas admito que provavelmente a ideia será causar no leitor cansaço, simulando o desgaste que estes processos causam aos seus intervenientes.
Gostei da referência às obras de arte e de show more literatura. Apesar de não ficar nos meus favoritos fiquei com vontade de ler outras obras da autora. show less
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