Nova Antologia do Conto Russo (1792-1998) (Em Portugues do Brasil)
by Bruno Barreto Gomide
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A Nova Antologia do Conto Russo é dedicada a Boris Schnaiderman, por seu trabalho em prol da divulgação da literatura russa no Brasil. Dedicatória merecida, já que esse trabalho foi não só pioneiro como de excelente qualidade.
Quinze tradutores verteram para o português quarenta contos de quarenta autores, representando duzentos anos de literatura russa. Muitos desses escritores eram inéditos em português. Outros eram semi-inéditos – só tinham sido publicados em traduções indiretas, freqüentemente bem intencionadas, mas que não conseguiam transmitir o original.
A Antologia abre com Pobre Liza (1792), de Karamzin, conto que, mesmo se fosse mal escrito e ultrapassado, o que não é verdade, valeria pelas referências show more feitas na literatura posterior. É impossível ler Pobre Gente, por exemplo, sem ter vontade de lê-lo. Definitivamente uma peça-chave para quem se interessa por literatura russa. Tradução de Fátima Bianchi e Natalia Marcelli de Carvalho.
Viagem a Arzrum (1836), de Púchkin, vem para surpreender os leitores de A Dama de Espadas e Evgueni Oniéguin, mostrando a versatilidade que faz o autor essencial. As notas de viagem originais, sobre uma viagem ao Cáucaso, foram trabalhadas para chegar nessa interessante mistura de gêneros. A nota de Cecília Rosas nos lembra de que o cosmopolita autor nunca viajou à Europa – duas semelhanças com Machado de Assis. Tradução de Cecília Rosas.
O leitor brasileiro já tinha oportunidade de conhecer Gógol . Almas Mortas foi publicado em tradução direta, assim como alguns dos contos mais famosos do autor (pela LPM) e, mais recentemente, o Teatro Completo (34). A Carruagem (1836) é um conto excelente, curiosamente diverso de alguns aspectos que nos acostumamos a chamar de Gogolianos. A nota ainda nos informa que a famosa frase “Todos nós viemos de O Capote”, geralmente atribuída a Dostoiévski, na verdade é do Melchior de Vogüé. Tradução de Arlete Cavaliere.
A Sílfide (1837), de Odoiévski, fica no limiar entre a loucura e o fantástico para duvidar da normalidade e da felicidade que pode existir para alguém que segue os padrões de outros. Daqueles contos que me fazem pensar “Por que mesmo eu não conheço esse autor?”. Tradução de Lucas Simone.
Taman (1840) é um episódio de O Herói do Nosso Tempo, de Lermontov, já publicado em tradução direta de Paulo Bezerra, pela Companhia das Letras. A escolha poderia parecer estranha, se não fosse o único trabalho em prosa do sucessor de Púchkin. Sempre vale a pena conferir uma nova tradução de um excelente conto, e fiquei satisfeita com a inclusão de Petchórin.
(Se eu pudesse fazer uma sugestão à editora 34, sugeriria uma edição da obra em verso de Lermontov. Além, é claro, de voltar a colocar a página Sobre a Coleção Leste no fim das edições).
Tradução de Aurora Fornoni Bernardini.
Polzunkov (1848) é um excelente conto de Dostoiévski, um conto de juventude que prenuncia os bufões filosóficos de suas obras primas, além de várias de suas características estilísticas. Parece outro conto desde que o li nas Obras Completas – como ocorre freqüentemente quando ele não é traduzido do francês. Tradução de Denise Sales.
Relíquia Viva (1852), de Turguêniev, é parte das Notas de um Caçador, e já notado por Vogüé, que pensa como as diversas escolas literárias teriam utilizado o tema, mostrando a originalidade da escrita do autor. Tradução de Cecília Rosas.
Quatro Dias (1877), de Vsiévolod Gárchin foi um choque, uma visão da guerra que eu nunca tinha visto em livros escritos antes da Primeira Guerra. Um prato cheio para quem diz que os russos anteciparam tudo. A visão de Gárchin do combatente voluntário abandonado ferido e condenado à reflexão desperta empatia, tristeza, horror pelas guerras, pela matança inútil, pela transformação de homens em joguetes. Tradução de Nivaldo dos Santos.
Viagem com um niilista (1882), de Nikolai Leskov, é inspirado em um acontecimento real e uma imagem interessante dos tempos após o atentado que matou o tsar Aleksandr II. Continua tão moderno quanto em sua época, em um mundo que ainda sofre com o terrorismo, mas com uma rara visão humorística. Tradução de Noé Silva.
Contos do major Gorbiliov (Primeira noite) (1884), de Mikhail Saltikov-Schedrin, confirma a reputação de grande satirista do autor, e é, salvo engano, sua primeira publicação em português em tradução direta. Tradução de Denise Sales.
O sonho de Makar (1885), de Vladímir Korolienko, faz parte das histórias siberianas do autor e é um favorito de antologias de literatura russa. Tradução de Denise Sales.
O brilhante O inquérito (1894), de Aleksandr Kuprin, sobre a investigação militar de um soldado tártaro acusado de roubar um par de botas e alguns copeques, é o melhor que conto que já li do autor, reflexivo e tocante, e pode ser lido no site da Revista Cult (link: http://revistacult.uol.com.br/home/2011/...) Tradução de Lucas Simone.
Ariadne (1895) foi provavelmente uma escolha difícil entre as centenas de contos de Tchekhov, mas não decepciona mesmo depois das coleções já publicadas pela 34. Descrito na nota introdutória como brilhante e cruel, Ariadne conta a história de uma indolente e provocante nobre russa atraída pela riqueza e pelo luxo. Tradução de Lucas Simone.
Luz e sombras (1896), de Fiódor Sologub, tem um enredo aparentemente simples que se transforma em um perturbador conto de inocência perdida. Tradução de Daniela Mountian e Moissei Mountian.
O polêmico O abismo (1902), de Leonid Andrêiev, é sem dúvida uma das histórias mais cruéis da antologia, e consta na nota que provocou furor na sociedade russa. A forma como ele trata de violência, trauma e inocência perdida deixa bem claro por que, mesmo para um leitor moderno. A forma como o tom muda progressivamente, fazendo o leitor sentir o que está por vir, é impressionante. Tradução de Nivaldo dos Santos.
Tolstói está presente com um de seus melhores contos, Depois do baile (1903). Vários dos temas preferidos do autor estão presentes, assim como suas marcantes descrições físicas, mas sem o didatismo de alguns deles. Tradução de Graziela Schneider.
Um dia humano (1910), de Arkadi Aviértchenko, é um conto mordaz sobre a vida em sociedade, e mostra porque o autor continuou popular no país mesmo após ser mandado ao exílio forçado por ironizar os bolcheviques. Tradução de Mário Ramos.
Parte dos Contos da Itália, Vendetta (1911) não é bem o que é associado com Maxim Górki. Escrito em Capri, o conto à primeira vista parece completamente diferente de obras como A Mãe e Pequenos Burgueses. Interessante por si mesmo e para ser analisado no contexto das obras do autor. Tradução de Lucas Simone.
Dia de Páscoa (1911), de Velimir Khliébnikov, é uma história ucraniana que mostra outra face do autor conhecido pela sua poesia futurista e pela novela Ka. Tradução de Mário Ramos.
Tempo do cão (1911), de Nadiéjda Téffi, é um conto inclassificável, uma visão perturbadora da modernidade, do trem. Téffi era muito popular na Rússia pré-revolucionária e saudou a Revolução de Fevereiro, depois emigrando por sua visão crítica aos bolcheviques. Por seus contos que representam a esterilidade da vida do exilado, ela continuou a ser publicada na Rússia. Tradução de Graziela Schneider.
Cartas de Tula (1918), de Boris Pasternak, é a primeira representação, na literatura russa, de uma produção cinematográfica, sobre o Tempo das Revoltas. Dois narradores contam sua visão da equipe do filme de perspectivas diferentes. Tula, aliás, é a cidade em que Pasternak morou com seus pais, a apenas alguns quilômetros de Yasnaya Poliana. Seu pai era amigo e ilustrador dos livros de Tolstói. Tradução de Mário Ramos e Yulia Mikaelyan.
A caverna (1920), de Ievguêni Zamiátin, é um conto distópico, um drama que se passa em cavernas no lugar onde há séculos ficava Petersburgo, em meio às lembranças – o piano, os livros, cartas, caixas de chá – de um tempo que não parece tão distante. Tradução de Mário Ramos e Yulia Mikaelyan.
O caça-ratos (1924), de Aleksandr Grin, é uma narrativa fundamental do Mito de Petersburgo, e é mencionada na história cultural do Volkov. O conto retrata a vida perigosa na Petrogrado dos anos 20, e é baseado em acontecimentos reais da primavera de 1920, recontados de forma macabra. Tradução de Denise Sales e Graziela Schneider.
Insolação (1925), de Ivan Búnin, é um romance sem final feliz, como ocorre nos contos de Búnin, a busca de algo que não pode ser encontrado. É interessante que faça referência a Tchekhov, autor com quem Búnin tem vários paralelos. Tradução de Graziela Schneider.
A crise (1925), de Mikhail Zóschenko, é uma sátira, mas a situação que descreve é bem típica da Moscou dos tempos soviéticos. Tradução de Denise Sales.
Valentin Katáiev é considerado por Schnaiderman um dos maiores contistas modernos. O vadio Eduard (1925) é baseado na vida de seu companheiro da chamada Escola de Odessa, o poeta Eduard Bagritski, então ainda vivo. Tradução de Denise Sales.
Liompa (1928), de Iuri Oliécha, é freqüentemente visto como um dos pontos altos da ficção do autor, e conta a história de um homem que morre e que tenta levar o mundo com ele. As imagens vívidas de Olesha tornam pequenos episódios magníficos. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini.
Makar, o duvidador (1929), de Andrei Platónov, é a primeira obra do autor traduzida no Brasil, o que parece incrível, já que ele é freqüentemente chamado de o melhor prosador do século XX. Definitivamente dá vontade de ver mais traduções. Tradução de Denise Sales.
O conto Guy de Maupassant (1932), é a fonte de duas das citações mais famosas de Isaac Bábel, o que já seria motivo para querer lê-lo. Bábel fala de arte e literatura nessa história sobre um tradutor do escritor francês que ele considerava um mestre, e faz um de seus contos mais impressionantes. Tradução de Nivaldo dos Santos.
Como o Robinson foi criado (1933), de Ilf e Petrov, conhecidos satiristas, mostra a burocracia soviética que interfere mesmo na literatura, e cria um delicioso non sense da escrita de um Robinson Crusoé russo. Tradução de Lucas Simone.
Depois de Primavera em Fialta (1936), eu me sinto culpada por conhecer principalmente as novelas de Vladimir Nabokov. Escrito em russo na época que o autor morava em Berlim, o conto fala sobre o encontro de dois exilados em uma fictícia cidade da Riviera, mas também do próprio exílio, dos Duplos e da natureza da memória. O que parece uma história romântica se desfaz na voz de um dos mais elusivos dos narradores não confiáveis de Nabokov. Tradução de Graziela Schneider.
Conexão (1937), de Daniil Kharms, é um pequeno e curioso conto sobre as (des) conexões urbanas que jamais serão conhecidas, e é uma boa apresentação à obra de outro ótimo escritor ainda desconhecido no Brasil. Tradução de Graziela Schneider.
O delicado Neve (1943), de Konstantin Paustóvski, conta o encontro entre duas pessoas que tem a impressão de já se conhecer, um homem que volta para casa de licença após um ferimento de guerra e descobre que seu pai faleceu, e a atriz moscovita que agora mora em sua casa. A relação entre eles evolui como um jogo. Tradução de Noé Silva.
Às avessas (1952), de Aleksei Riémizov, conta a guerra pela visão do exilado, em Paris durante a segunda guerra mundial. Um dos primeiros russos modernistas a chamar a atenção em Paris, Riémizov depois sofreu o esquecimento – talvez por, no final da vida, ter manifestado vontade de retornar à União Soviética e mesmo recebido o passaporte. Tradução de Boris Schnaiderman.
Depois de anos no Arquipélago Gulag, a descrição da morte do poeta em Xerez (1958), de Varlam Chalámov e inspirada pela morte de Óssip Mandelstam, não pode ser classificada como ficção, mesmo não tendo sido presenciada pelo autor. Fiquei com vontade de ler os Contos de Kolimá, descritos como um relato mais impactante do Gulag que o de Soljenitsin. Tradução de Nivaldo dos Santos.
Dá-lhe, coração! (1973), de Vassili Chukchin, é um conto sobre o inquérito de um veterinário que deu tiros no meio da noite para comemorar um avanço científico, e sobre sua estranha desculpa. Tradução de Fátima Bianchi.
Noite (1988), de Tatiana Tolstaia, fala de um deficiente mental de meia-idade que vive sob os cuidados da mãe de oitenta anos e decide virar escritor. O modo como a autora escreve essa história complicada é interessantíssimo. Tradução de Graziela Schneider.
A dama dos cachorros (1990), de Liudmila Petruchévskaia, não é o primeiro conto da antologia a fazer referência ao conto A Dama do Cachorrinho, de Tchékhov (publicado em tradução do Schnaiderman pela 34), no que a nota chama de uma reconstrução contemporânea. Tradução de Graziela Schneider.
Na rua e em casa (1995), de Serguei Dovlátov, que emigrou por não conseguir publicar na União Soviética, é um conto irônico, realmente divertido, sobre uma situação que parece muito familiar e ao mesmo tempo é típica da vida do emigrado. Tradução de Mário Ramos e Yulia Mikaelyan.
Um mês em Dachau (1998), de Vladímir Sorókin é uma mistura de roteiro de cinema e pesadelo, em que a própria narrativa se desintegra com os horrores que são contados. Tradução baseada na versão revisada publicada por Sorókin. Tradução de Mário Ramos e Yulia Mikaelyan. show less
Quinze tradutores verteram para o português quarenta contos de quarenta autores, representando duzentos anos de literatura russa. Muitos desses escritores eram inéditos em português. Outros eram semi-inéditos – só tinham sido publicados em traduções indiretas, freqüentemente bem intencionadas, mas que não conseguiam transmitir o original.
A Antologia abre com Pobre Liza (1792), de Karamzin, conto que, mesmo se fosse mal escrito e ultrapassado, o que não é verdade, valeria pelas referências show more feitas na literatura posterior. É impossível ler Pobre Gente, por exemplo, sem ter vontade de lê-lo. Definitivamente uma peça-chave para quem se interessa por literatura russa. Tradução de Fátima Bianchi e Natalia Marcelli de Carvalho.
Viagem a Arzrum (1836), de Púchkin, vem para surpreender os leitores de A Dama de Espadas e Evgueni Oniéguin, mostrando a versatilidade que faz o autor essencial. As notas de viagem originais, sobre uma viagem ao Cáucaso, foram trabalhadas para chegar nessa interessante mistura de gêneros. A nota de Cecília Rosas nos lembra de que o cosmopolita autor nunca viajou à Europa – duas semelhanças com Machado de Assis. Tradução de Cecília Rosas.
O leitor brasileiro já tinha oportunidade de conhecer Gógol . Almas Mortas foi publicado em tradução direta, assim como alguns dos contos mais famosos do autor (pela LPM) e, mais recentemente, o Teatro Completo (34). A Carruagem (1836) é um conto excelente, curiosamente diverso de alguns aspectos que nos acostumamos a chamar de Gogolianos. A nota ainda nos informa que a famosa frase “Todos nós viemos de O Capote”, geralmente atribuída a Dostoiévski, na verdade é do Melchior de Vogüé. Tradução de Arlete Cavaliere.
A Sílfide (1837), de Odoiévski, fica no limiar entre a loucura e o fantástico para duvidar da normalidade e da felicidade que pode existir para alguém que segue os padrões de outros. Daqueles contos que me fazem pensar “Por que mesmo eu não conheço esse autor?”. Tradução de Lucas Simone.
Taman (1840) é um episódio de O Herói do Nosso Tempo, de Lermontov, já publicado em tradução direta de Paulo Bezerra, pela Companhia das Letras. A escolha poderia parecer estranha, se não fosse o único trabalho em prosa do sucessor de Púchkin. Sempre vale a pena conferir uma nova tradução de um excelente conto, e fiquei satisfeita com a inclusão de Petchórin.
(Se eu pudesse fazer uma sugestão à editora 34, sugeriria uma edição da obra em verso de Lermontov. Além, é claro, de voltar a colocar a página Sobre a Coleção Leste no fim das edições).
Tradução de Aurora Fornoni Bernardini.
Polzunkov (1848) é um excelente conto de Dostoiévski, um conto de juventude que prenuncia os bufões filosóficos de suas obras primas, além de várias de suas características estilísticas. Parece outro conto desde que o li nas Obras Completas – como ocorre freqüentemente quando ele não é traduzido do francês. Tradução de Denise Sales.
Relíquia Viva (1852), de Turguêniev, é parte das Notas de um Caçador, e já notado por Vogüé, que pensa como as diversas escolas literárias teriam utilizado o tema, mostrando a originalidade da escrita do autor. Tradução de Cecília Rosas.
Quatro Dias (1877), de Vsiévolod Gárchin foi um choque, uma visão da guerra que eu nunca tinha visto em livros escritos antes da Primeira Guerra. Um prato cheio para quem diz que os russos anteciparam tudo. A visão de Gárchin do combatente voluntário abandonado ferido e condenado à reflexão desperta empatia, tristeza, horror pelas guerras, pela matança inútil, pela transformação de homens em joguetes. Tradução de Nivaldo dos Santos.
Viagem com um niilista (1882), de Nikolai Leskov, é inspirado em um acontecimento real e uma imagem interessante dos tempos após o atentado que matou o tsar Aleksandr II. Continua tão moderno quanto em sua época, em um mundo que ainda sofre com o terrorismo, mas com uma rara visão humorística. Tradução de Noé Silva.
Contos do major Gorbiliov (Primeira noite) (1884), de Mikhail Saltikov-Schedrin, confirma a reputação de grande satirista do autor, e é, salvo engano, sua primeira publicação em português em tradução direta. Tradução de Denise Sales.
O sonho de Makar (1885), de Vladímir Korolienko, faz parte das histórias siberianas do autor e é um favorito de antologias de literatura russa. Tradução de Denise Sales.
O brilhante O inquérito (1894), de Aleksandr Kuprin, sobre a investigação militar de um soldado tártaro acusado de roubar um par de botas e alguns copeques, é o melhor que conto que já li do autor, reflexivo e tocante, e pode ser lido no site da Revista Cult (link: http://revistacult.uol.com.br/home/2011/...) Tradução de Lucas Simone.
Ariadne (1895) foi provavelmente uma escolha difícil entre as centenas de contos de Tchekhov, mas não decepciona mesmo depois das coleções já publicadas pela 34. Descrito na nota introdutória como brilhante e cruel, Ariadne conta a história de uma indolente e provocante nobre russa atraída pela riqueza e pelo luxo. Tradução de Lucas Simone.
Luz e sombras (1896), de Fiódor Sologub, tem um enredo aparentemente simples que se transforma em um perturbador conto de inocência perdida. Tradução de Daniela Mountian e Moissei Mountian.
O polêmico O abismo (1902), de Leonid Andrêiev, é sem dúvida uma das histórias mais cruéis da antologia, e consta na nota que provocou furor na sociedade russa. A forma como ele trata de violência, trauma e inocência perdida deixa bem claro por que, mesmo para um leitor moderno. A forma como o tom muda progressivamente, fazendo o leitor sentir o que está por vir, é impressionante. Tradução de Nivaldo dos Santos.
Tolstói está presente com um de seus melhores contos, Depois do baile (1903). Vários dos temas preferidos do autor estão presentes, assim como suas marcantes descrições físicas, mas sem o didatismo de alguns deles. Tradução de Graziela Schneider.
Um dia humano (1910), de Arkadi Aviértchenko, é um conto mordaz sobre a vida em sociedade, e mostra porque o autor continuou popular no país mesmo após ser mandado ao exílio forçado por ironizar os bolcheviques. Tradução de Mário Ramos.
Parte dos Contos da Itália, Vendetta (1911) não é bem o que é associado com Maxim Górki. Escrito em Capri, o conto à primeira vista parece completamente diferente de obras como A Mãe e Pequenos Burgueses. Interessante por si mesmo e para ser analisado no contexto das obras do autor. Tradução de Lucas Simone.
Dia de Páscoa (1911), de Velimir Khliébnikov, é uma história ucraniana que mostra outra face do autor conhecido pela sua poesia futurista e pela novela Ka. Tradução de Mário Ramos.
Tempo do cão (1911), de Nadiéjda Téffi, é um conto inclassificável, uma visão perturbadora da modernidade, do trem. Téffi era muito popular na Rússia pré-revolucionária e saudou a Revolução de Fevereiro, depois emigrando por sua visão crítica aos bolcheviques. Por seus contos que representam a esterilidade da vida do exilado, ela continuou a ser publicada na Rússia. Tradução de Graziela Schneider.
Cartas de Tula (1918), de Boris Pasternak, é a primeira representação, na literatura russa, de uma produção cinematográfica, sobre o Tempo das Revoltas. Dois narradores contam sua visão da equipe do filme de perspectivas diferentes. Tula, aliás, é a cidade em que Pasternak morou com seus pais, a apenas alguns quilômetros de Yasnaya Poliana. Seu pai era amigo e ilustrador dos livros de Tolstói. Tradução de Mário Ramos e Yulia Mikaelyan.
A caverna (1920), de Ievguêni Zamiátin, é um conto distópico, um drama que se passa em cavernas no lugar onde há séculos ficava Petersburgo, em meio às lembranças – o piano, os livros, cartas, caixas de chá – de um tempo que não parece tão distante. Tradução de Mário Ramos e Yulia Mikaelyan.
O caça-ratos (1924), de Aleksandr Grin, é uma narrativa fundamental do Mito de Petersburgo, e é mencionada na história cultural do Volkov. O conto retrata a vida perigosa na Petrogrado dos anos 20, e é baseado em acontecimentos reais da primavera de 1920, recontados de forma macabra. Tradução de Denise Sales e Graziela Schneider.
Insolação (1925), de Ivan Búnin, é um romance sem final feliz, como ocorre nos contos de Búnin, a busca de algo que não pode ser encontrado. É interessante que faça referência a Tchekhov, autor com quem Búnin tem vários paralelos. Tradução de Graziela Schneider.
A crise (1925), de Mikhail Zóschenko, é uma sátira, mas a situação que descreve é bem típica da Moscou dos tempos soviéticos. Tradução de Denise Sales.
Valentin Katáiev é considerado por Schnaiderman um dos maiores contistas modernos. O vadio Eduard (1925) é baseado na vida de seu companheiro da chamada Escola de Odessa, o poeta Eduard Bagritski, então ainda vivo. Tradução de Denise Sales.
Liompa (1928), de Iuri Oliécha, é freqüentemente visto como um dos pontos altos da ficção do autor, e conta a história de um homem que morre e que tenta levar o mundo com ele. As imagens vívidas de Olesha tornam pequenos episódios magníficos. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini.
Makar, o duvidador (1929), de Andrei Platónov, é a primeira obra do autor traduzida no Brasil, o que parece incrível, já que ele é freqüentemente chamado de o melhor prosador do século XX. Definitivamente dá vontade de ver mais traduções. Tradução de Denise Sales.
O conto Guy de Maupassant (1932), é a fonte de duas das citações mais famosas de Isaac Bábel, o que já seria motivo para querer lê-lo. Bábel fala de arte e literatura nessa história sobre um tradutor do escritor francês que ele considerava um mestre, e faz um de seus contos mais impressionantes. Tradução de Nivaldo dos Santos.
Como o Robinson foi criado (1933), de Ilf e Petrov, conhecidos satiristas, mostra a burocracia soviética que interfere mesmo na literatura, e cria um delicioso non sense da escrita de um Robinson Crusoé russo. Tradução de Lucas Simone.
Depois de Primavera em Fialta (1936), eu me sinto culpada por conhecer principalmente as novelas de Vladimir Nabokov. Escrito em russo na época que o autor morava em Berlim, o conto fala sobre o encontro de dois exilados em uma fictícia cidade da Riviera, mas também do próprio exílio, dos Duplos e da natureza da memória. O que parece uma história romântica se desfaz na voz de um dos mais elusivos dos narradores não confiáveis de Nabokov. Tradução de Graziela Schneider.
Conexão (1937), de Daniil Kharms, é um pequeno e curioso conto sobre as (des) conexões urbanas que jamais serão conhecidas, e é uma boa apresentação à obra de outro ótimo escritor ainda desconhecido no Brasil. Tradução de Graziela Schneider.
O delicado Neve (1943), de Konstantin Paustóvski, conta o encontro entre duas pessoas que tem a impressão de já se conhecer, um homem que volta para casa de licença após um ferimento de guerra e descobre que seu pai faleceu, e a atriz moscovita que agora mora em sua casa. A relação entre eles evolui como um jogo. Tradução de Noé Silva.
Às avessas (1952), de Aleksei Riémizov, conta a guerra pela visão do exilado, em Paris durante a segunda guerra mundial. Um dos primeiros russos modernistas a chamar a atenção em Paris, Riémizov depois sofreu o esquecimento – talvez por, no final da vida, ter manifestado vontade de retornar à União Soviética e mesmo recebido o passaporte. Tradução de Boris Schnaiderman.
Depois de anos no Arquipélago Gulag, a descrição da morte do poeta em Xerez (1958), de Varlam Chalámov e inspirada pela morte de Óssip Mandelstam, não pode ser classificada como ficção, mesmo não tendo sido presenciada pelo autor. Fiquei com vontade de ler os Contos de Kolimá, descritos como um relato mais impactante do Gulag que o de Soljenitsin. Tradução de Nivaldo dos Santos.
Dá-lhe, coração! (1973), de Vassili Chukchin, é um conto sobre o inquérito de um veterinário que deu tiros no meio da noite para comemorar um avanço científico, e sobre sua estranha desculpa. Tradução de Fátima Bianchi.
Noite (1988), de Tatiana Tolstaia, fala de um deficiente mental de meia-idade que vive sob os cuidados da mãe de oitenta anos e decide virar escritor. O modo como a autora escreve essa história complicada é interessantíssimo. Tradução de Graziela Schneider.
A dama dos cachorros (1990), de Liudmila Petruchévskaia, não é o primeiro conto da antologia a fazer referência ao conto A Dama do Cachorrinho, de Tchékhov (publicado em tradução do Schnaiderman pela 34), no que a nota chama de uma reconstrução contemporânea. Tradução de Graziela Schneider.
Na rua e em casa (1995), de Serguei Dovlátov, que emigrou por não conseguir publicar na União Soviética, é um conto irônico, realmente divertido, sobre uma situação que parece muito familiar e ao mesmo tempo é típica da vida do emigrado. Tradução de Mário Ramos e Yulia Mikaelyan.
Um mês em Dachau (1998), de Vladímir Sorókin é uma mistura de roteiro de cinema e pesadelo, em que a própria narrativa se desintegra com os horrores que são contados. Tradução baseada na versão revisada publicada por Sorókin. Tradução de Mário Ramos e Yulia Mikaelyan. show less
May 26, 2013Portuguese
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