Maria Velho da Costa (1938–2020)
Author of The three Marias: New Portuguese letters
About the Author
Image credit: Drawing by Manuel Anastácio / Portuguese Wikipedia.
Works by Maria Velho da Costa
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Common Knowledge
- Legal name
- Costa, Maria de Fátima de Bívar Velho da
- Other names
- Costa, Maria Velho da
- Birthdate
- 1938-06-26
- Date of death
- 2020-05-23
- Gender
- female
- Education
- University of Lisbon
- Occupations
- writer
teacher
feminist
novelist - Organizations
- Three Marias
- Awards and honors
- Camões Prize (2002)
- Relationships
- Barreno, Maria Isabel (co-author)
Horta, Maria Teresa (co-author) - Nationality
- Portugal
- Birthplace
- Lisbon, Portugal
- Places of residence
- Lisbon, Portugal
- Associated Place (for map)
- Lisbon, Portugal
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Maria Velho da Costa escreve belissimamente, uma escrita intelectual, riquíssima de vocabulário, de metáfora, mas ao mesmo tempo com uma atenção sublime ao pormenor, com personagens credíveis (como Freddie que, segundo Eduardo Pitta, é "uma bicha espantosa") em cenas que, de tão realistas ou dramáticas, acreditamos terem sido vividas ou presenciadas pela autora, como neste encontro de uma criança de dois anos com uma velha algarvia, vendedora de amêndoas, que vem montada numa show more burra acompanhada do seu burrito recém-nascido:
"Brava, hã?", repete a mulher debruçada sobre ela, "ora atão donde vem o cotumiço?" E Lucinha enceta uma conversação que lhe parece bastante possível.
- De li.
- Casinha alugada ao mês, atão não? E que te dizem?, que não andes aqui no carreiro, não passes o cancelim, podes ter maus encontros, atão não?
- Nã.
- Pespineta patranheira e tanto, ora atão. Em quantos vais?
Lucinha espeta dois dedos no ar. Januária diz-lhe, "Chega" e ela concorda, abraça pelo cachaço o animalinho e diz, "Chê", levantando a cara para a mulher que entretanto se assentou bufando no muro baixo, tecido de pedra com tojo e urtiga, o do lado de cá.
- Chega não, que ainda agora não viste nada. Se não te ferrou o jeriquinho lá sabe para o que estás guardada. Burro de meses, menino da Lua e o que a Lua beija não medra ao Sol. Acautela-te serigaitinha. Queres uma amêndoa?, toma lá treze, uma para cada mês e outra ao cornudo. Assim houvera feito para a minha. Vade retro.
A maior parte dos contos deste livro, porque parece tratar-se de um livro de contos, ou de um novo género de romance? (os personagens ressurgem em contextos diferentes e o capítulo final parece uma assembleia geral) é de uma grande complexidade, pleno de referências e implicações, que precisa de ser lido devagar, refletido e cruzado com informação que já veio ou que há-de vir, não aconselhável, portanto, a leitores apressados, como nesta reflexão de Ramos:
Na minha idade, quando sou amado, ou requerido presente tanto quanto um corpo que envelhece e mente que ancilosa podem sê-lo. Que fazemos aqui? As paredes têm delicadas circunvoluções setecentistas, cromados brilham e veludos e estuque absorvem luz. Há telas nas paredes, reconheço-os - os nomes. Dispo sem gosto estes corpos cujo cóccix ocultamente opresso numa postura inverosímil aguenta a coluna que sustenta o nome que tem uma cabeça. Como os ramos do meu nome as garras das costelas contêm-lhes alvéolos sangrentos desenhados ao pez da nicotina. O Chile caiu há dias, quem de nós pensa nisso já? Por cima do andar alto as estrelas divagam numa arborescência muito mais eterna que estas criaturas com vísceras, ainda mais remotas. Não deveria ter vindo aqui, porque colectivizar esforços da mais fútil das manifestações - o desenho de sinais gráficos sobre resíduos celulósicos, a mão que mima o comando da descarga espástica do cosmos.
Um livro, em suma, que estimula a ler mais textos da autora e que, para além disso, ainda pode ser comprado apenas por 4,90 euros! show less
"Brava, hã?", repete a mulher debruçada sobre ela, "ora atão donde vem o cotumiço?" E Lucinha enceta uma conversação que lhe parece bastante possível.
- De li.
- Casinha alugada ao mês, atão não? E que te dizem?, que não andes aqui no carreiro, não passes o cancelim, podes ter maus encontros, atão não?
- Nã.
- Pespineta patranheira e tanto, ora atão. Em quantos vais?
Lucinha espeta dois dedos no ar. Januária diz-lhe, "Chega" e ela concorda, abraça pelo cachaço o animalinho e diz, "Chê", levantando a cara para a mulher que entretanto se assentou bufando no muro baixo, tecido de pedra com tojo e urtiga, o do lado de cá.
- Chega não, que ainda agora não viste nada. Se não te ferrou o jeriquinho lá sabe para o que estás guardada. Burro de meses, menino da Lua e o que a Lua beija não medra ao Sol. Acautela-te serigaitinha. Queres uma amêndoa?, toma lá treze, uma para cada mês e outra ao cornudo. Assim houvera feito para a minha. Vade retro.
A maior parte dos contos deste livro, porque parece tratar-se de um livro de contos, ou de um novo género de romance? (os personagens ressurgem em contextos diferentes e o capítulo final parece uma assembleia geral) é de uma grande complexidade, pleno de referências e implicações, que precisa de ser lido devagar, refletido e cruzado com informação que já veio ou que há-de vir, não aconselhável, portanto, a leitores apressados, como nesta reflexão de Ramos:
Na minha idade, quando sou amado, ou requerido presente tanto quanto um corpo que envelhece e mente que ancilosa podem sê-lo. Que fazemos aqui? As paredes têm delicadas circunvoluções setecentistas, cromados brilham e veludos e estuque absorvem luz. Há telas nas paredes, reconheço-os - os nomes. Dispo sem gosto estes corpos cujo cóccix ocultamente opresso numa postura inverosímil aguenta a coluna que sustenta o nome que tem uma cabeça. Como os ramos do meu nome as garras das costelas contêm-lhes alvéolos sangrentos desenhados ao pez da nicotina. O Chile caiu há dias, quem de nós pensa nisso já? Por cima do andar alto as estrelas divagam numa arborescência muito mais eterna que estas criaturas com vísceras, ainda mais remotas. Não deveria ter vindo aqui, porque colectivizar esforços da mais fútil das manifestações - o desenho de sinais gráficos sobre resíduos celulósicos, a mão que mima o comando da descarga espástica do cosmos.
Um livro, em suma, que estimula a ler mais textos da autora e que, para além disso, ainda pode ser comprado apenas por 4,90 euros! show less
Come scrivevo qualche settimana fa – ma lo riscrivo perché era Ferragosto e immagino in parecchiз avessero di meglio da fare che stare a leggere me – ho incrociato questo libro grazie a un articolo de Il Post che ne raccontava la storia di come avesse contribuito ad alimentare il malcontento già crescente nei confronti del regime di Marcelo Caetano e che portò alla sua caduta nel 1974. Purtroppo il libro, arrivato in Italia nel 1977, è fuori catalogo: sia lodata la biblioteca che mi show more è giunta in soccorso, ma spero proprio che qualche CE decida di pubblicarlo di nuovo perché Le nuove lettere portoghesi è uno di quei libri che fa bene leggere.
Il libro usa una commistione di stili – poesia, saggio e romanzo epistolare – per raccontare la condizione delle donne portoghesi sotto il regime di Caetano e, più in generale, delle donne nelle società patriarcali, senza i soliti filtri del buon costume e della buona creanza. Infatti, fu subito definito pornografico e incompatibile con la morale pubblica: mica si può parlare di vagine, masturbazione femminile e di maschi tesi a ingannare la loro impotenza, riproduttori, stalloni, così pessimi amanti, così frettolosi a letto, così ansiosi di esibire il pene. Mica si può dire che non è di questi uomini di cui le donne portoghesi, le donne di tutto il mondo, hanno bisogno.
Nemmeno si può parlare e descrivere tutta la violenza di genere subita dalle donne: quella sì, davvero scandalosa, oscena e indegna. Ma si sa, alle società patriarcali non piace che si mostrino i panni sporchi della sua violenza in pubblico: è pericoloso, si rischia di far vedere a tutte che non sono sole e di fornire loro gli strumenti per analizzare la propria situazione al di fuori delle logiche patriarcali. Le autrici, forti della stanchezza che la sottomissione e l’obbedienza portano con sé, hanno preso spunto da un’opera del 1669, Lettere di una monaca portoghese, per raccontare in chiave femminista il dolore di questa donna, Maria Alcoforado, costretta a prendere i voti e innamoratasi del cavaliere di Chamilly, che finì per abbandonarla al suo destino di prigioniera dopo aver approfittato dei suoi sentimenti.
L’aspetto che come al solito mi intristisce di più di questo genere di libro e che, sebbene sia degli anni Settanta e scritto durante una dittatura, un testo del genere potrebbe generare scandalo ancora oggi, semplicemente perché ha il tipo di contenuti dai quali gli uomini si sentono minacciati e dai quali c’è bisogno di rassicurarli: non tutti gli uomini, bravo che non violenti la tua compagna, complimenti per aver fatto gli auguri a tutte le donne per l’otto marzo. E se per una volta ci concentrassimo sulla violenza di genere invece che sul vostro amor proprio ferito? show less
Il libro usa una commistione di stili – poesia, saggio e romanzo epistolare – per raccontare la condizione delle donne portoghesi sotto il regime di Caetano e, più in generale, delle donne nelle società patriarcali, senza i soliti filtri del buon costume e della buona creanza. Infatti, fu subito definito pornografico e incompatibile con la morale pubblica: mica si può parlare di vagine, masturbazione femminile e di maschi tesi a ingannare la loro impotenza, riproduttori, stalloni, così pessimi amanti, così frettolosi a letto, così ansiosi di esibire il pene. Mica si può dire che non è di questi uomini di cui le donne portoghesi, le donne di tutto il mondo, hanno bisogno.
Nemmeno si può parlare e descrivere tutta la violenza di genere subita dalle donne: quella sì, davvero scandalosa, oscena e indegna. Ma si sa, alle società patriarcali non piace che si mostrino i panni sporchi della sua violenza in pubblico: è pericoloso, si rischia di far vedere a tutte che non sono sole e di fornire loro gli strumenti per analizzare la propria situazione al di fuori delle logiche patriarcali. Le autrici, forti della stanchezza che la sottomissione e l’obbedienza portano con sé, hanno preso spunto da un’opera del 1669, Lettere di una monaca portoghese, per raccontare in chiave femminista il dolore di questa donna, Maria Alcoforado, costretta a prendere i voti e innamoratasi del cavaliere di Chamilly, che finì per abbandonarla al suo destino di prigioniera dopo aver approfittato dei suoi sentimenti.
L’aspetto che come al solito mi intristisce di più di questo genere di libro e che, sebbene sia degli anni Settanta e scritto durante una dittatura, un testo del genere potrebbe generare scandalo ancora oggi, semplicemente perché ha il tipo di contenuti dai quali gli uomini si sentono minacciati e dai quali c’è bisogno di rassicurarli: non tutti gli uomini, bravo che non violenti la tua compagna, complimenti per aver fatto gli auguri a tutte le donne per l’otto marzo. E se per una volta ci concentrassimo sulla violenza di genere invece che sul vostro amor proprio ferito? show less
Dec 3, 2023Italian
Apr 18, 2019Portuguese (Portugal)
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