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Uma briga entre meninos, com uma agressão violenta, motiva o encontro entre seus pais para uma solução civilizada. Por meio de um diálogo preparado para o teatro, a autora Yasmina Reza é impiedosa.

"O deus da carnificina" foi adaptado para o cinema por Roman Polanski, em 2011. Livro e filme são impagáveis ao expor, sem filtros, o fracasso em nossa capacidade de nos comunicar. Em muitos momentos, sentimos vontade de rir. Mas estamos, melancolicamente, rindo de nós mesmos.

A publicação da Editora Âyiné foi traduzida por Marina Delfini.
Muitas decisões e comportamentos parecem não fazer qualquer sentido em uma empresa, fenômeno que parece ser pior no caso das grandes corporações. Esse é o tema explorado pela autora em "A Fábrica", onde pessoas trabalham em funções ordinárias sem explicação ou justificativa sobre sua finalidade ou propósito.

Tradução de Jefferson José Teixeira para a editora Todavia.
A paixão de um casal jovem, entusiasta da ideologia do partido comunista inglês, é o ponto de partida desse romance curto do autor britânico Ian McEwan. Um evento quase místico — o encontro com dois ferozes cães negros — vai mudar a história de June e Bernard, suas convicções políticas, religiosas e conjugais.

A narrativa se desenrola pelo tempo, em uma Europa logo após a Segunda Guerra Mundial — onde traços do nazismo ainda são visíveis — até a queda do muro de Berlim. O texto de Ian McEwan transita entre a elegância e a precisão à medida que fatos das vidas de June e Bernard vão sendo revelados.

Tradução de Daniel Pellizzari.
Excelente surpresa trazida da Hungria pela Editora 34. Kornél Esti, alter ego do escritor Deszo Kosztolányi, é protagonista ou coadjuvante de 13 narrativas. Histórias sempre provocantes, quase todas muito divertidas. Texto ágil, personagens impagáveis. Faz pensar, e faz rir muito.
Cinco textos que misturam ciência, ficção e histórias de vida de pessoas muito conhecidas e outras esquecidas encantam pelas revelações e pelo texto agradável e fluido. Esse livro, pelo título inspirado e provocador, foi uma excelente surpresa.
Traduzido por Paloma Vidal.
Pedro embarca em um ônibus urbano para um longo trajeto. Por meio de um texto acurado, Rubens Figueiredo nos leva à periferia da cidade, mas também pela consciência de Pedro, seu passado, suas reflexões, seus temores sobre o que pode encontrar no destino, um bairro operário onde mora onde mora sua namorada, Rosane. Vida real numa bela narrativa.
O autor cria um Oriente onde histórias, lendas, tragédias, religião e personagens finamente elaborados se entrelaçam, tendo como pano de fundo uma cultura riquíssima. Narrativa de alto nível.
Por que o palhaço tem a risada grande? 
Victor Hugo faz mais uma denúncia do abismo social que vigorou na França durante o absolutismo. “O homem que ri“, porém, foi a obra do autor que menos que agradou. “Os miseráveis”e “O corcunda de Notre Dame” (originalmente “Notre-Dame de Paris”) são superiores.
Fiquei fascinado quando, ainda na puberdade, li uma versão condensada dessa obra. Resolvi ler agora. Parece que houve uma edição em português, mas não há oferta em sebos. A edição importada é muito cara. Acabei ouvindo em audiolivro.
Em 1933, a pintora austríaca Christiane Ritter é convidada por seu marido para acompanhá-lo em uma temporada no Círculo Polar Ártico. Ele é caçador. Ela vai encontrá-lo na ilha de Spitsbergen, parte de um arquipélago na costa da Noruega. Ambos se instalam com a companhia de um jovem em um amigo com menos de dez metros quadrados.
A leitura me causou duas impressões. No estilo de um diário, Christiane, então com 36 anos de idade, relata a rotina de obtenção de água, preparo de refeições (quase sempre dependendo de um animal abatido), convivência com o frio e sono. Sua sensibilidade como artista se manifesta nas descrições do ambiente: as gradações de cores do gelo, neves e rochas, das nuvens e das auroras boreais.
Quando chega o inverno e o sol desaparece, o cenário ganha novas nuances, e continua belo. E também assustador: a temperatura despenca, ocorrem fortes nevoeiros e a "cegueira da neve", as tempestades duram dias, o mar congela, a neve praticamente soterra o refúgio. A descrição da autora é envolvente; compartilhamos de sua ansiedade nas situações mais desafiadoras e de seu cansaço nas jornadas mais longas acompanhando os caçadores.
A segunda impressão foi muito negativa. Eles estão la para caçar, show more principalmente raposas. Espalham armadilhas, depois recolhem os animais cuja pelo vai saciar a vaidade de mulheres e homens. Se um urso polar cruza o seu caminho, tanto melhor. O animal será impiedosamente abatido.
Pássaros e animais marinhos são mortos para garantir a alimentação dos caçadores. Não é caça para subsistência, mas para garantir a alimentação de quem está lá para matar outros animais. Antes sensível a esse sentido, a autora vai se rendendo à visão mercantilista da atividade.
Há excelentes relatos sobre a vida nos polos. O mérito de "A Woman in the Polar Night" é a boa narrativa de Christiane Ritter e seu pioneirismo.
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Sin City é uma cidade inventada por Frank Miller. Com traços sombrios e um texto seco, o autor expõe extrema violência policial e de parte da população, além de corrupção. Ou seja, nada diferente do que se pode encontrar em regiões violentas de cidades mundo fora. Isso pra contar uma historia de assassinato e vingança,
Trinta anos da obra do autor britânico são cobertos pela antologia Man in his time: the best science fiction stories of Brian W. Aldiss, que reúne 22 contos escolhidos pelo próprio escritor. A seleção cobre vários temas visitados por Aldiss, da ciência presente ao futuro, distopias, alienígenas e até um toque de humor.
A qualidade das tramas é desigual, a começar de Super-toys las all summer long, conto que Stanley Kubrick programou fazer mas foi executado por Steven Spielberg. O filme Inteligência artificial é melhor do que o texto.
Entre outras narrativas, gostei de All the World's Tears, mas minha história preferida nessa antologia é Last orders. Divertidíssimo, o conto acompanha um policial encarregado de evacuar uma cidade - Londres? - diante da iminência do fim do planeta Terra, que será atingida por um fragmento desprendido da Lua. Encontra um casal bebendo tranquilamente em um bar, e a urgente retirada é a todo momento adiada em um diálogo intercalado por "mais uma dose".
Curiosamente, Arthur Dent e o alienígena Ford Prefect, de Guia do mochileiro das galáxias, dedicam os últimos minutos de sua permanência na Terra - antes de sua destruição - em um pub. A famosa obra de Douglas Adams foi veiculada primeiro como série transmitida pela rádio BBC 4, em 1978. No ano seguinte, foi publicada como livro, transformado em filme em 2005. O conto Last orders foi publicado em 1977.
Minha opção por conhecer a antologia por audiolivro não foi muito show more boa: a dicção, clareza, entonação e ritmo do narrador Arthur Blake não são dos melhores. Há suspiros no meio da leitura, vazamento de ruídos de páginas viradas e até de Blake engolindo.

Merged review:

Trinta anos da obra do autor britânico são cobertos pela antologia Man in his time: the best science fiction stories of Brian W. Aldiss, que reúne 22 contos escolhidos pelo próprio escritor. A seleção cobre vários temas visitados por Aldiss, da ciência presente ao futuro, distopias, alienígenas e até um toque de humor.
A qualidade das tramas é desigual, a começar de Super-toys las all summer long, conto que Stanley Kubrick programou fazer mas foi executado por Steven Spielberg. O filme Inteligência artificial é melhor do que o texto.
Entre outras narrativas, gostei de All the World's Tears, mas minha história preferida nessa antologia é Last orders. Divertidíssimo, o conto acompanha um policial encarregado de evacuar uma cidade - Londres? - diante da iminência do fim do planeta Terra, que será atingida por um fragmento desprendido da Lua. Encontra um casal bebendo tranquilamente em um bar, e a urgente retirada é a todo momento adiada em um diálogo intercalado por "mais uma dose".
Curiosamente, Arthur Dent e o alienígena Ford Prefect, de Guia do mochileiro das galáxias, dedicam os últimos minutos de sua permanência na Terra - antes de sua destruição - em um pub. A famosa obra de Douglas Adams foi veiculada primeiro como série transmitida pela rádio BBC 4, em 1978. No ano seguinte, foi publicada como livro, transformado em filme em 2005. O conto Last orders foi publicado em 1977.
Minha opção por conhecer a antologia por audiolivro não foi muito boa: a dicção, clareza, entonação e ritmo do narrador Arthur Blake não são dos melhores. Há suspiros no meio da leitura, vazamento de ruídos de páginas viradas e até de Blake engolindo.
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Dois contos desconcertantes do escritor argentino. Personagens interessantes e bem construídos em situações fantásticas. Realismo mágico latino-americano com doses de Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft. Edição traz ainda versões mais curtas do conto que dá título ao livro.
Peça de teatro de 1920 em que o escritor checo Karel Capek não só criou a palavra "robô" como prenunciou o medo de uma revolta das máquinas dotadas de inteligência artificial. Algumas situações envolvendo homens e mulheres são risíveis, mas a trama traz suspense e antecipação.
A história de Jonas e a baleia, da Bíblia, é pano de fundo para alguns dos nove ensaios do autor britânico - mais conhecido por sua distopia "1984". Aqui Orwell faz uma crítica profunda da literatura inglesa dos anos 1930, o próprio uso do idioma inglês e recordações do tempo em que era um oficial na Índia, ainda colônia do império britânico. Apesar de ter sido escrito há mais de 80 anos, não é uma obra datada.
O título do livro - e também do principal conto, que tem duas sequências - foi base de inspiração para o filme "A.I. - Inteligência Artificial", dirigido por Steven Spielberg. Realizar esse filme era desejo antigo de Stanley Kubrick. Por mais de 20 anos, o diretor de "2001, Uma odisséia no espaço", conversou esporadicamente com o escritor de ficção científica britânico Brian Aldiss, autor da trilogia de contos "Superbrinquedos". Kubrick morreu antes de ver seu conto realizado, e Spielberg assumiu o projeto.

"Superbrinquedos" gira ao redor de David, uma criança-robô comprada para resolver a dificuldade dos pais de realizar uma gravidez natural. O relacionamento menino-mãe não flui bem; só posso dizer que é uma história triste.

É, também, o melhor conto entre os 22 reunidos nesse livro. Há narrativas mais e menos interessantes, que vão da ficção científica à fantasia. Brian Aldiss tem um bom texto, é criativo, mas nem todos os contos me agradaram.

Vale muito o prefácio escrito pelo autor em que ele relata o contato com Stanley Kubrick. As longas conversar e tentativas de adaptar o conto para o filme. Isso levou Aldiss a escrever as sequências, dando ainda mais dramaticidade à história. Muito da personalidade e preciosismo de Kubrick é revelado nesse texto introdutório.

"Superbrinquedos duram o verão todo" foi traduzido por Beth Vieira para a Companhia das Letras. É uma pensa o livro estar esgotado. Consegui meu exemplar em um sebo.
Um trabalho solitário, que, muitas vezes, implica um salto no escuro: haverá leitores do outro lado? Essas e outras dúvidas atormentam escritoras e autores em geral. E não foi diferente com Betina González, autora de “A obrigação de ser genial”. Sua obra combina experiências de vida e reflexões que contribuem muito para quem pensa em escrever livros.
A autora argentina intercala momentos de seus estudos literários com citações, exemplos e referências de muitas escritoras e autores de várias fases, gêneros e localidades. E discorre sobre o papel dos artistas frente a problemas sociais, particularmente a violência contra mulheres.
A leitura de “A obrigação de ser genial” tem efeitos colaterais: o desejo de ler todas as obras citadas e atirar-se imediatamente à escrita.
“A obrigação de ser genial” foi lançado em maio de 2024 pela editora Bazar do Tempo, com tradução de Silvia Massimini Felix e prefácio de Andrea del Fuego.
Ocean Vuong é neto de uma camponesa do Vietnã e um soldado dos Estados Unidos. Após o fim da guerra, sua mãe e tias saíram do país para não sofrer discriminação por conta da paternidade, e acabaram nos Estados Unidos. É lá que Ocean Vuong aprendeu a ler apenas aos 11 anos, e logo começou sua premiada produção poética. “Céu Noturno Crivado de Balas” traz 35 fragmentos em poesia e prosa marcados pela guerra que se arrastou por quase 20 anos no Sudeste Asiático. São textos fortes, como “o que será do pastor
Se as ovelhas forem canibais?”
O livro foi lançado em bela edição bilíngue pela Âyiné com tradução de Rogerio Galindo.
É conhecimento geral que milhões de habitantes foram tirados à força do continente africano e escravizados nas Américas. Menos conhecido é o fato de que milhares de indígenas foram levados para a Europa nos séculos XVI e XVII. O objetivo era o mesmo, serem submetidos ao trabalho escravo. Também eram objeto de estudo por cientistas, e expostos à curiosidade popular em zoológicos. Mulheres sofriam violência sexual.

O que se passava na cabeça dessas pessoas? E se fossem crianças, conduzidas a um mundo estranho por pessoas que falavam uma língua estranha? Esse é o tema de “O som do ruido da onça”, livro de Micheliny Verunschk. Seu currículo é extenso: além de escritora, ela é compositora e historiadora. Mestre em Literatura e Crítica Literária e Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC São Paulo.

Micheliny recorreu a documentos e gravuras antigos e relatos de viagem para contar, numa narrativa que mistura realidade e ficção, a história de Iñe-e e Juri, uma menina e um garoto de dois povos diferentes, os Miranha e os Juri. Entre 1817 e 1820, o zoólogo Johann Baptist Spix e o botânico Carl von Martius, ambos alemães, participavam de uma grande expedição científica pelo Brasil. Quando voltam para a Europa, levam consigo milhares de exemplares vegetais e animais. E as duas crianças indígenas.

A autora escreve intercalando o século XIX com o presente. Quando vê a gravura de Iñe-e em uma exposição, a jovem Josefa sente-se abalada. show more Percebe que sua história, de alguma forma, está ligada àquela menina. “O som do rugido da onça” traz ainda reproduções das anotações de Spix e Martius. Algumas de suas conclusões seriam motivo para rir, se a gente não soubesse das trágicas consequências da colonização.

Mais do que com o frio, as crianças sofrem com a saudade e a difícil adaptação ao ambiente totalmente alienígena à sua cultura. Foram alimentadas, vestidas e batizadas com nomes cristãos, Isabella e Johannes. Mas não estavam protegidas contra as doenças do homem branco. E morreram pouco tempo depois de chegar à Alemanha.
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Oito contos bem pesados, tendo como pano de fundo situações lúgubres, velhas crenças e discriminação. A equatoriana Mónica Ojeda é mais uma escritora latino-americana a voltar seu olhar e talento narrativo ao lado sombrio do ser humano.
Rosshalde é uma ampla propriedade rural em algum recanto da Alemanha, que abriga um casarão, jardins, vegetação silvestre e um lago. O cenário idílico evoca paz e tranquilidade, ambiente perfeito para as criações de um artista como Johann Veraguth. Suas obras fazem sucesso, e o pintor conta até com um estúdio na propriedade para trabalhar em isolamento. Tudo perfeito, porém, olhando de perto esse estúdio também é o refúgio de Johann, que deixou de conviver com sua esposa Adele no casarão.

Quarto romance do escritor alemão Hermann Hesse, “Rosshalde” é assim o retrato melancólico de um casamento fracassado. Johann e Adele encontram-se apenas na hora do almoço, uma concessão familiar pelo bem-estar de Pierre, o filho de sete anos do casal. Albert, o filho mais velho, vive em outra cidade para estudar – distância que também convém por conta das desavenças com o pai.

A rotina de Johann é quebrada pelas visitas casuais de Pierre. Ele ama e até se esforça para dar atenção ao filho, mas não consegue deixar de focar na tela, e a conexão é frágil. Além disso, o garoto não gosta do cheiro das tintas. O pintor se angustia entre a vontade de se realizar como artista e a dedicação à família. O quadro de solidão é rompido com a visita de Otto Burkhardt, um velho amigo. O texto é excelente, porém triste. A presença de Otto é um alívio na trama – e para os leitores. Os amigos dividem longos diálogos, garrafas de vinho e braçadas no show more lago. Em um momento de provação, Johann e Adele parecem se aproximar.

Gostei muito desse romance, e acabei contando parte da história, mas apesar de curta a narrativa ainda se desenvolve em outras situações. O livro tem traços autobiográficos, pois na ocasião da escrita o próprio casamento de Hesse estava abalado. E sua obra é marcada pela busca da realização e liberdade individual frente a vida em sociedade. Em 1910, o autor já explorara o tema da busca interna e externa no romance “Gertrud”.

“Rosshalde” foi lançado em 1914, pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. tradução Julia Bussius. Essa edição da Todavia é de 2023, com tradução de Julia Bussius. A bela capa é de Luciana Facchini, com ilustração de Juan Narowé.
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A leitura desse livro é um prazer. Elle Frances Sanders, dos EUA, pesquisou, escreveu e ilustrou 48 palavras "intraduzíveis" de diversos idiomas, mundo afora. São palavras que expressam estados de espírito e situações muito particulares, associadas à cultura de diferentes países. Há espaço até para uma palavra em sânscrito, língua que hoje não é mais falada por ninguém. Não há nenhum vocábulo em português.

É um trabalho sensível, o que só aumenta a estranheza de a autora ter caído na armadilha do preconceito contra os gatos pretos. Silhuetas do felino ilustram a palavra em ídiche usadas para pessoas que têm ou trazem má sorte. Outro senão da edição caprichada da Raposa Vermelha são as letras usadas pela autora, por vezes de difícil leitura.

A tradução do livro é de Livia Deorsola.
Joe Sacco nasceu em Malta em 1960, mora nos EUA e ganhou reconhecimento mundial por combinar quadrinhos e jornalismo com enorme talento. Obra mais conhecida é Palestina. No Brasil, teve diversas edições, como essa da Conrad. Mais recente publicada em 2021 pela editora Veneta.
Sacco passa para o papel suas experiências em territórios ocupados, a área que corresponde à antiga Palestina e hoje encontra-se dividida entre área do estado de Israel, e duas áreas de maioria palestina ocupadas por Israel após a Guerra dos 6 Dias em 1967: Faixa de Gaza e Cisjordânia.
Livros trazem relatos de Sacco de Jerusalém até a Faixa de Gaza, que visitou no começo dos anos 2000. Pela e convivência com moradores e mais de 100 entrevistas, Sacco mostra hábitos e cultura local, do lado palestino e também do israelense.
O autor costuma se desenhar em várias situações: seu auto retrato é quase uma caricatura. E é transparente em suas manifestações. Quando tem medo, diz isso claramente, se retrata olhando para trás quando passa por um lugar suspeito. Também não esconde sua busca por relatos mais trágicos, que podem tornar o sensacionalismo da obra mais atraente para os leitores.
Sacco é facilmente acusado de parcialidade na abordagem desse conflito que já dura mais de 70 anos. Ele pode estar sentado na sala de uma casa palestina, tomando chás com muito açúcar, enquanto ouve relatos de prisões, mortes, oliveiras cortadas e braços quebrados de meninos que atiravam show more pedras em soldados de Israel. Também pode sentar-se em um café em Israel para conversar com duas jovens do país.
Lendo essas obras, fica evidente que é preciso ter mais informações do outro lado – regra de ouro de jornalismo – antes de abraçar uma convicção. Mas é um bom começo para conhecer o dia a dia de um povo ou nação oprimidos, sejam os moradores de Gorazde sob o cerco Sérvio durante a guerra e limpeza étnica na Bósnia, os intocáveis de um recanto remoto da Índia ou os palestinos. E nisso Joe Sacco é muito bom.
Se o autor não é muito eficiente em manter-se imparcial no que chama de investigações jornalísticas, essa é uma questão que para ele está bem resolvida. Na introdução para o volume Reportagens, publicado pela Companhia das Letras, ele cita a opinião de dois jornalistas consagrados.
Segundo o norte-americano Edward R. Murrow: “Toda pessoa é prisioneira de sua experiência. Ninguém consegue eliminar seus preconceitos — mas tão somente reconhecê-los.”
Já o britânico Robert Fisk afirmou: “Sempre digo que os repórteres devem ser neutra e imparcialmente a favor daqueles que sofrem”.
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Livro tem o título de um dos três contos. Outros dois são “Uma Carta” e “As Cartas não Mentem Jamais”. Os textos são uma longa carta, uma entrevista e uma narrativa em terceira pessoa. Em comum, conflitos humanos e altas doses de erotismo.

“O Monstro”, o melhor dos três, envolve violência. Os diálogos de “As Cartas não Mentem Jamais” me pareceram absolutamente inverossímeis.
Por vezes hermético, muitas vezes claro, mas sempre poeta. A leitura dessa coletânea organizada pelo próprio Manuel Bandeira em 1961 desafiou minha atenção em muitos momentos. Porém, outros tantos poemas deixaram claro, por sua beleza e sensibilidade, que ainda tenho de amadurecer como leitor de poesia. Sou um leitor apressado, mas desfrutei dessa “Antologia Poética” ao longo de meses.

A maior parte desse volume da Editora Global, com 360 páginas, traz poemas do próprio Bandeira. E há 20 páginas dedicadas a traduções de poetas estrangeiros. E as 30 páginas finais são dedicadas ao “Mafuá do Malungo”, em que o autor dedica poemas a amigos e, entre outros recursos literários, faz jogos de palavras.
Em algum momento da adolescência, me dei conta, preocupado, com a ideia de que um dia teria de fazer o que meus pais faziam: ter dinheiro para manter uma casa e os filhos. Será que eu daria conta?
É mais ou menos disso que se trata a obra do gaúcho Dyonello Machado, que em "Os Ratos" narra um dia na vida de um homem casado, com um filho, que deve honrar uma dívida com o leiteiro ara não ser despejado.
Naziazeno Barbosa é funcionário público em Porto Alegre. Sai de casa aflito pela cobrança humilhante, e o autor nos leva a acompanhá-lo durante um dia pela capital provinciana. Recorre a amigos, agiotas, malandros, roleta. A angústia apenas aumenta.
O texto de Dyonello Machado é seco e ágil, um livro muito agradável de ler, apesar do conteúdo.
A edição da Todavia traz ainda posfácio do escritor e crítico literário Davi Arrigucci Jr.
Horror, ficção científica ou apenas a mente criativa de um adolescente fã de filmes e quadrinhos perturbadores? A leitura de Charles Burns incomoda, provoca e diverte.
Seres humanos inferiores, usados como cobaias? A ideia foi explorada em O Planeta dos Macacos, livro do francês Pierre Boulle cujo lançamento está completando 60 anos. Foi sucesso de vendas, mas a história ficou muito famosa com o filme lançado cinco anos mais tarde. Tanto sucesso que teve várias sequências, séries de TV e quadrinhos.

O livro tem diferenças com relação ao filme. Astronautas chegam ao planeta Soror, em outro sistema solar, onde macacos são a espécie dominante. Chimpanzés, orangotangos e gorilas têm uma rígida divisão de castas. Seres humanos comportam-se e são vistos como animais irracionais.

Autor sempre rejeitou classificar obra como ficção científica. Contou numa entrevista que, em visita a um zoológico, ficou impressionado com as expressões dos gorilas, e passou a imaginar como seriam as relações entre macacos e humanos

Pierre Boulle não diz, mas a história de sua vida pode ter influenciado na obra. Trabalhava como engenheiro no sudeste asiático quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial. Atuou como agente secreto da inteligência francesa, mas foi descoberto, considerado traidor e forçado trabalhar como escravo. Foram 25 meses em campos de trabalho, onde quase morreu por maus-tratos e doenças tropicais.

Sou contra rótulos fechados para obras. O livro é do autor, mas é difícil não contestar que se trata sim de ficção científica. Em Soror, macacos dominam tecnologia pouco atrasada em relação à do planeta Terra. show more Caçam homens, mulheres e crianças, que são abatidos a tiros ou capturados. Usados como animais de laboratório, da mesma maneira que fazemos, muitas vezes impondo sofrimento físico e emocional extremos.

O melhor do livro é a ideia do autor sobre a inversão das espécies. Como ficção científica, tem elementos fracos, apela muito para uma fantasia ingênua. Como uma espaçonave de lazer se depara com mensagem numa garrafa de vidro em pleno espaço? A situação caberia mil anos antes, mas no século 25? Aliás, o tom do diálogo entre o casal a bordo dá entender que machismo não recuou um milímetro em séculos.

Incomoda comportamento protagonista, Ulysse Mérou, jornalista que fazia parte da missão. Em um momento se compadece dos semelhantes, em outro assume atitude dominadora e prepotente. Há incongruências na condução da narrativa.

Vale a leitura, porém, embora a presença na memória do filme O Planeta dos Macacos, de 1968, seja muito forte. Principalmente por conta da cena de encerramento. Livro tem desfecho diferente, embora não menos impactante. Vale registra que Rod Serling, roteirista da clássica série Além da Imaginação (The Twilight Zone) foi quem sugeriu a cena do desfecho. Pierre Boulle não gostou.

O planeta dos macacos foi lançado no Brasil apenas em 2008. Nesta edição da Editora Aleph, La Planète des Sanges, nome original, foi traduzido por André Telles. A edição com pouco mais de 200 páginas traz ainda uma breve entrevista dada pelo autor em 1972, um artigo da BBC e um bom posfácio de Bráulio Tavares.
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Em tempos de obscurantismo, vale revisitar Uivo, de Allen Ginsberg.
Especialmente nessa linda edição em graphic novel ilustrada pelo artista Eric Drooker.
De motorneiro de bonde a soldado acusado de deserção e militar cassado pela ditadura, o potiguar Miltom Gurgel Praxedes foi muita coisa na vida. Casado duas vezes, pais de dezesseis filhos, terminou como padre da Igreja Ecumênica Cristã do Brasil. E escreveu alguns livros.

Sua obra está reunida nesse volume "Agonia de um Padre Casado", que traz ainda "Recordações de um Soldado", poemas, textos inacabados, fotos e uma reportagem da revista "O Cruzeiro" sobre quando ele compareceu ao programa Sílvio Santos e comeu grilos e gafanhotos em troca de um cachê para reconstruir sua igreja parcialmente derrubada por uma enchente.

Os escritos de Dom Gurgel são relatos breves, quase sempre anedóticos, sobre a vida na caserna, suas desventuras amorosas, falta crônica de dinheiro, vida familiar, religiosa e bebedeiras. O texto é cru, coloquial e traz relatos chocantes, como quando escreve que no "cabaré das treze, garota com catorze anos era velha". Representações de um país que não deveria existir.
No vilarejo Parada do Apito, um café à margem da linha ferroviária oferece churrasco e tomates verdes fritos entre suas especialidades. É a década de 1930, marcada pelo pós-Primeira Guerra Mundial, os efeitos da Depressão e a pesada segregação racial. Pela porta da frente, são atendidos os brancos. Pela porta de trás, negros, desempregados, vagabundos. Duas mulheres desafiam a intolerância, administram o estabelecimento e dividem a criação de um menino acidentado na linha do trem.

É em torno do Café da Parada do Apito que circulam histórias de amizade, racismo, tragédias, violência contra a mulher, episódios pitorescos e mesmo um evento macabro. A autora fragmenta a obra entre diferentes momentos do passado, a partir da década de 1930 e dos anos 1980. A trama é dividida entre vários narradores e um semanário pitoresco sob responsabilidade da gestora da agência dos correios.

Um leve tempero de humor acompanha a narrativa; em algumas passagens, humor negro. Mesmo quando vítimas, porém, as mulheres assumem o protagonismo da história.

Alabama é o estado natal de Fannie Flagg, autora de “Tomates verdes fritos”. O livro chegou originalmente às livrarias em 1987, e foi adaptado para o cinema quatro anos depois. A edição brasileira chegou pela Globo Livros, com tradução de Vera Caputo. Receitas de preparo de tomates verdes fritos e outros pratos típicos do sul dos EUA fazem parte da obra.

A tradução para a Globo Livros é de Vera Caputo