Manoel de Barros (–2014)
Author of Memórias Inventadas
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Image credit: Manoel de Barros
Works by Manoel de Barros
Exercícios de ser criança: O menino que carregava água na peneira [e] a menina avoada (Portuguese Edition) (1999) 40 copies, 1 review
L252 - Memórias Inventadas 1 copy
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- Date of death
- 2014-11-13
- Gender
- male
- Occupations
- poet
children's book author
memoirist - Nationality
- Brazil
- Birthplace
- Cuiabá, Brazil
- Place of death
- Campo Grande, Brazil
- Associated Place (for map)
- Brazil
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Maria-pelego-preto
Maria-pelego-preto, moça de 18 anos, era abundante de
pelos no pente.
A gente pagava para ver o fenômeno.
A moça cobria o rosto com um lençol branco e deixava
pra fora só o pelego preto que se espalhava quase até pra
cima do umbigo.
Era uma romaria chimite!
Na porta o pai entrevado recebendo as entradas...
Um senhor respeitável disse que aquilo era uma
indignidade e um desrespeito às instituições da família e da
Pátria!
Mas parece que era fome.
Maria-pelego-preto, moça de 18 anos, era abundante de
pelos no pente.
A gente pagava para ver o fenômeno.
A moça cobria o rosto com um lençol branco e deixava
pra fora só o pelego preto que se espalhava quase até pra
cima do umbigo.
Era uma romaria chimite!
Na porta o pai entrevado recebendo as entradas...
Um senhor respeitável disse que aquilo era uma
indignidade e um desrespeito às instituições da família e da
Pátria!
Mas parece que era fome.
Poeminhas pescados numa fala de João
I
O menino caiu dentro do rio, tibum,
ficou todo molhado de peixe...
A água dava rasinha de meu pé.
II
João foi na casa do peixe
remou a canoa
depois, pan, caiu lá embaixo
na água. Afundou.
Tinha dois pato grande.
Jacaré comeu minha boca do lado de fora.
III
Nain remou de uma piranha.
Ele pegou um pau, pum!,
na parede do jacaré...
Veio Maria-preta fazeu três araçás pra mim. Meu
bolso teve um sol com passarinhos.
IV
De dia apareceu uma cobrona
debaixo de João.
Eu show more matei a boca pequenininha daquela cobra.
Ninguém não tinha um rosto com chão perto.
V
De minha mão dentro do quarto
meu lambarizinho
escapuliu _ ele piscava
priscava
até cair naquele
corixo.
E se beijou todo dentro de água!
Eu se chorei...
Vi um rio indo embora de andorinhas...
VI
Escuto o meu rio:
é uma cobra
de água andando
por dentro de meu olho
VII
O sapo de pau
virou chão...
O boi piou cheio de folhas com água. Eu ia no mato
sozinho.
O cocô de capivaras era rodelinhas _ bola de gude.
Eu quebrei uma com meu sapato.
Todas viraram também.
VIII
Você viu um passarinho abrido naquela casa que ele
veio comer na minha mão?
Minha boca estava seca
igual do que uma pedra em cima do rio
IX
Vento?
Só subindo no alto da árvore
que a gente pega ele pelo rabo... show less
I
O menino caiu dentro do rio, tibum,
ficou todo molhado de peixe...
A água dava rasinha de meu pé.
II
João foi na casa do peixe
remou a canoa
depois, pan, caiu lá embaixo
na água. Afundou.
Tinha dois pato grande.
Jacaré comeu minha boca do lado de fora.
III
Nain remou de uma piranha.
Ele pegou um pau, pum!,
na parede do jacaré...
Veio Maria-preta fazeu três araçás pra mim. Meu
bolso teve um sol com passarinhos.
IV
De dia apareceu uma cobrona
debaixo de João.
Eu show more matei a boca pequenininha daquela cobra.
Ninguém não tinha um rosto com chão perto.
V
De minha mão dentro do quarto
meu lambarizinho
escapuliu _ ele piscava
priscava
até cair naquele
corixo.
E se beijou todo dentro de água!
Eu se chorei...
Vi um rio indo embora de andorinhas...
VI
Escuto o meu rio:
é uma cobra
de água andando
por dentro de meu olho
VII
O sapo de pau
virou chão...
O boi piou cheio de folhas com água. Eu ia no mato
sozinho.
O cocô de capivaras era rodelinhas _ bola de gude.
Eu quebrei uma com meu sapato.
Todas viraram também.
VIII
Você viu um passarinho abrido naquela casa que ele
veio comer na minha mão?
Minha boca estava seca
igual do que uma pedra em cima do rio
IX
Vento?
Só subindo no alto da árvore
que a gente pega ele pelo rabo... show less
A boca
Por mim passavas
- a água mais pura -
e eu sofri sede.
Agora penso
nessa abertura com que por cem anos
me envenenaste,
com que por cem anos
a minha infância
tornaste impura,
tornaste indigna
de andar ao lado
de outras infâncias...
Agora penso
deixar na fenda
de tua boca,
dissimulada,
todo o veneno
de que me inundas.
Porém és morta
resignada,
ó boca amarga
de namorada
nunca atingida,
sempre anelada,
boca perdida
para as saudades,
jamais beijada.
Dorme entre flores.
(Será dos anjos?)
Vai para os anjos
vai show more para os pássaros
do firmamento,
ó boca amarga,
que me enganavas
com aquele riso
posto no canto!
Por mim passavas
- a água mais pura -
e eu sofri quanto.
Estás no seio
da morte, quente
como na terra;
me conturbavas
como na rua
tu exibias
teus belos dentes...
Vai, grota rasa!
Flor obscura
na minha infância
desabrochada,
continuada
na adolescência
perto de casa,
na vizinhança,
solta na rua
como uma fruta
covil aberto
de mil acenos,
cobra na rua
que me mordia,
que me injetava
sutis venenos...
Vai, pesadelo,
noites de insônia,
pura miragem
de minha sede;
vai para o diabo
que te carregue,
não me persiga:
sai, boca morta! show less
Por mim passavas
- a água mais pura -
e eu sofri sede.
Agora penso
nessa abertura com que por cem anos
me envenenaste,
com que por cem anos
a minha infância
tornaste impura,
tornaste indigna
de andar ao lado
de outras infâncias...
Agora penso
deixar na fenda
de tua boca,
dissimulada,
todo o veneno
de que me inundas.
Porém és morta
resignada,
ó boca amarga
de namorada
nunca atingida,
sempre anelada,
boca perdida
para as saudades,
jamais beijada.
Dorme entre flores.
(Será dos anjos?)
Vai para os anjos
vai show more para os pássaros
do firmamento,
ó boca amarga,
que me enganavas
com aquele riso
posto no canto!
Por mim passavas
- a água mais pura -
e eu sofri quanto.
Estás no seio
da morte, quente
como na terra;
me conturbavas
como na rua
tu exibias
teus belos dentes...
Vai, grota rasa!
Flor obscura
na minha infância
desabrochada,
continuada
na adolescência
perto de casa,
na vizinhança,
solta na rua
como uma fruta
covil aberto
de mil acenos,
cobra na rua
que me mordia,
que me injetava
sutis venenos...
Vai, pesadelo,
noites de insônia,
pura miragem
de minha sede;
vai para o diabo
que te carregue,
não me persiga:
sai, boca morta! show less
Seis ou treze coisas que aprendi sozinho
1
Gravata de urubu não tem cor.
Fincando na sombra um prego ermo, ele nasce.
Luar em cima de casa exorta cachorro.
Em perna de mosca salobra as águas se cristalizam.
Besouros não ocupam asas para andar sobre fezes.
Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
No osso da fala dos loucos têm lírios.
3
Tem 4 teorias de árvore que eu conheço.
Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga.
Segunda: que uma planta de borra produz frutos show more ardentes.
Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros.
Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes.
7
Uma chuva é íntima
Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas;
Se aparecem besouros nas folhagens;
Se as lagartixas se fixam nos espelhos;
Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores;
E o escuro se umedeça em nosso corpo.
9
Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a
lesma deixa risquinhos líquidos
A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as
palavras
Neste coito com letras!
Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se
Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma
escorre. . .
Ela fode a pedra.
Ela precisa desse deserto para viver.
11
Que a palavra parede não seja símbolo
de obstáculos à liberdade
nem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância,
etc. (essas coisas que acham os
reveladores de arcanos mentais)
Não.
Parede que me seduz é de tijolo, adobe
preposto ao abdomen de uma casa.
Eu tenho um gosto rasteiro de
ir por reentrâncias
baixar em rachaduras de paredes
por frinchas, por gretas com lascívia de hera.
Sobre o tijolo ser um lábio cego.
Tal um verme que iluminasse.
12
Seu França não presta pra nada
Só pra tocar violão.
De beber água no chapéu as formigas já sabem quem ele é.
Não presta pra nada.
Mesmo que dizer:
Povo que gosta de resto de sopa é mosca.
Disse que precisa de não ser ninguém toda vida.
De ser o nada desenvolvido.
E disse que o artista tem origem nesse ato suicida.
13
Lugar em que há decadência.
Em que as casas começam a morrer e são habitadas por
morcegos.
Em que os capins lhes entram, aos homens, casas portas
a dentro.
Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a
dentro.
Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.
Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência.
Onde os homens terão a força da indigência.
E as ruínas darão frutos show less
1
Gravata de urubu não tem cor.
Fincando na sombra um prego ermo, ele nasce.
Luar em cima de casa exorta cachorro.
Em perna de mosca salobra as águas se cristalizam.
Besouros não ocupam asas para andar sobre fezes.
Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
No osso da fala dos loucos têm lírios.
3
Tem 4 teorias de árvore que eu conheço.
Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga.
Segunda: que uma planta de borra produz frutos show more ardentes.
Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros.
Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes.
7
Uma chuva é íntima
Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas;
Se aparecem besouros nas folhagens;
Se as lagartixas se fixam nos espelhos;
Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores;
E o escuro se umedeça em nosso corpo.
9
Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a
lesma deixa risquinhos líquidos
A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as
palavras
Neste coito com letras!
Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se
Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma
escorre. . .
Ela fode a pedra.
Ela precisa desse deserto para viver.
11
Que a palavra parede não seja símbolo
de obstáculos à liberdade
nem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância,
etc. (essas coisas que acham os
reveladores de arcanos mentais)
Não.
Parede que me seduz é de tijolo, adobe
preposto ao abdomen de uma casa.
Eu tenho um gosto rasteiro de
ir por reentrâncias
baixar em rachaduras de paredes
por frinchas, por gretas com lascívia de hera.
Sobre o tijolo ser um lábio cego.
Tal um verme que iluminasse.
12
Seu França não presta pra nada
Só pra tocar violão.
De beber água no chapéu as formigas já sabem quem ele é.
Não presta pra nada.
Mesmo que dizer:
Povo que gosta de resto de sopa é mosca.
Disse que precisa de não ser ninguém toda vida.
De ser o nada desenvolvido.
E disse que o artista tem origem nesse ato suicida.
13
Lugar em que há decadência.
Em que as casas começam a morrer e são habitadas por
morcegos.
Em que os capins lhes entram, aos homens, casas portas
a dentro.
Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a
dentro.
Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.
Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência.
Onde os homens terão a força da indigência.
E as ruínas darão frutos show less
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