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Manoel de Barros (–2014)

Author of Memórias Inventadas

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Image credit: Manoel de Barros

Works by Manoel de Barros

Memórias Inventadas (2004) 84 copies
O livro das ignoracas (Portuguese Edition) (1993) 52 copies, 1 review
Livro sobre nada (Portuguese Edition) (1996) 48 copies, 1 review
Menino do Mato (Em Portugues do Brasil) (2010) 46 copies, 1 review
Poesia Completa (Em Portugues do Brasil) (2010) 45 copies, 2 reviews
Gramática Expositiva do Chão (1990) 25 copies, 1 review
Poemas Rupestres (Portuguese Edition) (2004) 22 copies, 1 review
Arranjos Para Assobio (2002) 18 copies, 1 review
Poemas Concebidos sem Pecado e Face Imovel (1999) 16 copies, 1 review
Ensaios fotográficos (2000) 15 copies, 1 review
Retrato do artista quando coisa (1998) 13 copies, 1 review
Birds for a Demolition (2010) 13 copies, 2 reviews
Concerto a ceu aberto: Para solos de ave (1991) 8 copies, 1 review
Materia de poesia (1900) 7 copies, 1 review
O Encantador de Palavras (2000) 3 copies
Face Imóvel 1 copy, 1 review

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Date of death
2014-11-13
Gender
male
Occupations
poet
children's book author
memoirist
Nationality
Brazil
Birthplace
Cuiabá, Brazil
Place of death
Campo Grande, Brazil
Associated Place (for map)
Brazil

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33 reviews
Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia
O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

Terreno de 10×20, sujo de mato os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou
show more na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos -
tem muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso

Tudo que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta
Pessoas desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo que explique
a lagartixa de esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom para poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora
Aliás, é também objeto de poesia saber
qual o período médio que um homem jogado fora
pode permanecer na Terra
sem nascerem em sua boca
as raízes da escória

As coisa sem importância
são bens de poesia
pois é assim
que um chevrolé gosmento
chega ao poema
e as andorinhas de junho
show less
Palavras de Lúcio Ayres Fragoso, professor de física em São Paulo, compadre do preso, a título de esclarecimento à Polícia

para começar ninguém jamais garantiu que coisa era aquele bicho

o mal-traçado?
o trintão dorminhoco?
o irmão desaparecido de Chopin?
o homem de borracha?

conheci-o
em seu escritório
jogando bilboquê

era sempre arrastado para lugares com musgo
por meio de ser árvore podia adivinhar se a terra
era fêmea e dava sapos

via o mundo como a pequena rã vê a manhã de
show more
dentro de uma pedra

pela delicadeza de muitos anos ter se agachado
nas ruas para apanhar detritos - compreende
o restolho

a esse tempo lê Marx

tem mil anos

tudo que vem da terra para ele sabe a lesma

é descoberto dentro de um beco
abraçado no esterco
que vão dinamitar

antes de preso fora atacado por uma depressão mui
peculiar que o fizera invadir-se pela indigência: uma de pressão tão grande dentro dele como a ervinha rasteira
que num terreno baldio cresce por cima de canecos enferrujados pedaços de porta arcos de barril...

era de profissão "encantador de palavras"

ninguém o reconheceria mais

resíduos de Raskolnikof encardiam sua boca de
Pierrô muito comida de tristeza

e sujo
show less
O cisco

(Tem vez que a natureza ataca o cisco para o bem.)
Principais elementos do cisco são: gravetos, areia,
cabelos, pregos, trapos, ramos secos, asas de mosca,
grampos, cuspe de aves, etc.
Há outros componentes do cisco, porém de menos
importância.
Depois de completo, o cisco se ajunta, com certa
humildade, em beiras de ralos, em raiz de parede,
Ou, depois das enxurradas, em alguma depressão de
terreno.
Mesmo bem rejuntado o cisco produz volumes quase
sempre modestos.
O cisco é infenso a
show more fulgurâncias.
Depois de assentado em lugar próprio, o cisco
produz material de construção para ninhos de
passarinhos.
Ali os pássaros vão buscar raminhos secos, trapos,
asas de mosca
Para a feitura de seus ninhos.
O cisco há de ser sempre aglomerado que se iguala
a restos.
Que se iguala a restos a fim de obter a contemplação
dos poetas.
Aliás, Lacan entregava aos poetas a tarefa de
contemplação dos restos.
E Barthes completava: Contemplar restos é
narcisismo.
Ai de nós!
Porque Narciso é a pátria dos poetas.
Um dia pode ser que o lírio nascido nos monturos
empreste qualidade de beleza ao cisco.
Tudo pode ser.
Até sei de pessoas que propendem a cisco mais do
que a seres humanos.
show less
Poeminhas pescados numa fala de João

I
O menino caiu dentro do rio, tibum,
ficou todo molhado de peixe...
A água dava rasinha de meu pé.

II
João foi na casa do peixe
remou a canoa
depois, pan, caiu lá embaixo
na água. Afundou.
Tinha dois pato grande.
Jacaré comeu minha boca do lado de fora.

III
Nain remou de uma piranha.
Ele pegou um pau, pum!,
na parede do jacaré...
Veio Maria-preta fazeu três araçás pra mim. Meu
bolso teve um sol com passarinhos.

IV
De dia apareceu uma cobrona
debaixo de João.
Eu
show more matei a boca pequenininha daquela cobra.
Ninguém não tinha um rosto com chão perto.

V
De minha mão dentro do quarto
meu lambarizinho
escapuliu _ ele piscava
priscava
até cair naquele
corixo.
E se beijou todo dentro de água!
Eu se chorei...
Vi um rio indo embora de andorinhas...

VI

Escuto o meu rio:
é uma cobra
de água andando
por dentro de meu olho

VII
O sapo de pau
virou chão...
O boi piou cheio de folhas com água. Eu ia no mato
sozinho.
O cocô de capivaras era rodelinhas _ bola de gude.
Eu quebrei uma com meu sapato.
Todas viraram também.

VIII
Você viu um passarinho abrido naquela casa que ele
veio comer na minha mão?
Minha boca estava seca
igual do que uma pedra em cima do rio

IX
Vento?
Só subindo no alto da árvore
que a gente pega ele pelo rabo...
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